No dia 8 de setembro, o grupo UMBU sobe ao palco do Teatro de Câmara Túlio Piva (República, 575), em Porto Alegre, para o show de lançamento do seu primeiro álbum. A apresentação marca o início da circulação do projeto, que se apresenta como uma plataforma de criação imagético-musical composta por artistas de diferentes linguagens e formações.
Organizado de forma coletiva, UMBU reúne Stephanie Soeiro, Brenno di Napoli, Diih Neques Olákùndé, Felipe Santos, Guilherme Fernandes, Lucas Luz, Mário Ferrari e Rafa Rodrigues. O álbum homônimo traz 12 faixas com influências de musicalidades gaúchas como o batuque de nação, as tribos de carnaval, milonga, o maçambique de Osório, suingue, a música espiritual mbyá guarani, os ternos de reis e as duplas caipiras dos anos 1970; ritmos afro diaspóricos latinos e caribenhos como a cumbia, merengue, dub e dancehall; o afrobeat nigeriano e o semba de Angola; e também ritmos brasileiros como o baião, congado, samba de roda, zambiapunga e maxixe.
Em uma linguagem moderna, sampler, MPC e sintetizadores dialogam com instrumentos de percussão como ilú, xequerê, patangome, caracaxá, casaca e talking drum, além de guitarra, baixo, cavaco, violão e viola caipira. As canções apresentam poesia inspirada nos contadores de história, nos slams, em Eduardo Galeano, Paulo Leminski, entre outros, abordando assuntos como o racismo estrutural, Exu, a agressiva expansão imobiliária, o extermínio da juventude negra, as cansativas jornadas de trabalho e a decolonialidade.
O processo de criação do álbum remonta ao verão de 2018, quando Brenno e Lucas se encontraram casualmente em uma feira e decidiram criar algo a partir das dificuldades de sustentar a arte em um país que ameaçava seus ecossistemas culturais. Depois de idas e vindas — interrompidas inclusive pela pandemia — o projeto ganhou fôlego em 2024, ao ser contemplado pela Lei Complementar no 195/2022 – Lei Paulo Gustavo.
O disco foi gravado entre agosto de 2024 e março de 2025 no Estúdio 4’33”, com produção executiva realizada de forma coletiva pelos integrantes. A direção artística e musical é de Lucas Luz; a produção musical, de Brenno di Napoli. Confira o álbum visual.
Além de nove faixas autorais, o álbum inclui versões de “Obrigado, igualmente” (Prateado & Belinho), “Salve-se quem souber” (Gelson Oliveira) e um tema instrumental em homenagem a Luis Vagner, o Guitarreiro. Entre as participações especiais estão Mateus Mapa, Rodrigo Siervo, Huberto Martins, Renato Dall Ago, Filipe Narcizo e Edjane Deodoro, que dedica sua interpretação à memória de sua mãe, Mestra Iara Deodoro.
Show UMBU, lançamento de álbum
8 de setembro
20h30min
Teatro de Câmara Túlio Piva (República, 575)
Apoio: Dinamico, back in black
Inteira solidária: R$45,00
Meia: R$30,00
Inteira: R$60,00
Ingressos antecipados: Sympla e Planeta Surf Bourbon Wallig
(https://site.bileto.sympla.
Reinvenção pluriversa dos estilhaços
Por Eliane Marques, romancista e poeta | @elianemarques.escritora
No início todo o poder estava nele investido. Solitário, comandava o universo até a chegada de Atunda, seu auxiliar na criação. Invejoso do umbuzeiro que era Orixalá, o servo rola um rochedo do topo. O rochedo estilhaça a divindade. Estilhaça-a em incontáveis pedaços. Pedaços que passam a constituir, cada um, pluriversos – meu mundo, ar-palavra, deus abandonado, dna de cristo, pra gente dançar, vherá, vez em quando sufoco, salve-se quem souber, obrigado, igualmente, tá no sangue, nuvens e umbu. Pluridade sem caos, morte concebida como fissura que se resolve na pluridade da arte, jamais, jamais na extinção. Ecoando o poeta Oliveira Silveira em “Negro no sul”, pluriarte cujas ondas nos libertam de mil disfarçadas senzalas prisões diabo a quatro onde tentam nos manter agrilhoados.
Pluriverso sonoro e imagético que empresta algo de sombra, de aconchego, às vezes algo de sol e de incômodo. Suas raízes recolhem águas, águas das chuvas, das enchentes, das enxurradas, do mate amargo. Mas também a água da secura. Em época de escassez, seus som e sopro, alimentam mais que um prato de arroz com amor. Podeviver cem anos. Ou mais. É existência, por isso dá samba, “samba que sobra da gente, na gente que sobra do samba”. E semba!
Versado da língua iorubá para o pretuguês, um dos sentidos de Atunda, e uma das dimensões de Orixalá – a criação – reside na palavra mão. A palavra mão que faz, que toca, que joga, que estilhaça, tão suja quanto a palavra pé, ambos, com pedaços de nuvens, improvisam horizontes pelo retrovisor, um retrovisor que bem poderia ser o
espelho de Oxum.
Servindo-nos da concepção de Améfrica, esse prato saboroso e desconcertante servido por Lélia Gonzáles, o projeto UMBU permite circular por seu tronco e folhas parte da seiva feita pelas raízes das tradições bantus, iorubás, guaranis, charruas, ressonando uma singular amefricanidade meridional. UMBU, quase UMBUNTU, versa, canta, veste e se reveste da língua meridional dos ancestrais, fontes de existência, permanência e recriação, muito boa recriação.
Auetu!
UMBU é uma plataforma de criação imagético-musical baseada em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Organizada de forma coletiva, é composta por:
– Stephanie Soeiro | @stephanie
– Brenno di Napoli | @brennocidious
– Diih Neques Olákùndé | @diihneques
– Felipe Santos | @felipesantossotnasepilef
– Guilherme Fernandes | @oguifsphoto
– Lucas Luz | @lucasjasluz
– Mário Ferrari | @marisc0
– Rafa Rodrigues | @rafarodrigues000
FAIXAS
1. MEU MUNDO
(Letra e música: Lucas Luz)
2. VEZ EM QUANDO SUFOCO
(Letra: Lucas Luz | Música: Brenno di Napoli, Felipe Santos, Lucas Luz, Rafa Rodrigues e Stephanie Soeiro)
3. AR-PALAVRA
(Letra: Lucas Luz | Música: Brenno di Napoli e Lucas Luz)
4. DNA DE CRISTO (TODO JESUS É NEGRO QUANDO A VIDA DIZ NÃO)
BKUKC2500003
(Letra: Lucas Luz e Diih Neques Olákùndé | Música: Lucas Luz e Mário Ferrari)
5. NUVENS
(Letra: Lucas Luz | Música: Brenno di Napoli)
6. UMBU | OLOFIN
(Letra: Lucas Luz | Música: Brenno di Napoli e Diih Neques Olákùndé)
7. SALVE-SE QUEM SOUBER
(Gelson Oliveira, Sérgio Rezende e Paul Castro)
8. PRA GENTE DANÇAR
(Letra: Lucas Luz | Música: Brenno di Napoli e Lucas Luz)
9. OBRIGADO, IGUALMENTE
(Santolin e Fernando F. Lourenço)
10. DEUS ABANDONADO
(Letra: Lucas Luz | Música: Mário Ferrari e Lucas Selbach)
11. VHERÁ (UM BANCO DE DADOS PARA A GENTE ACESSAR)
(Letra: Lucas Luz | Música: Kevin Brezolin)
12. TÁ NO SANGUE
(Música: UMBU)
Direção artística e musical: Lucas Luz
Produção musical: Brenno di Napoli – Exceto as faixas “Meu mundo”, produzida por Lucas Luz; “DNA de Cristo (Todo Jesus é negro quando a vida diz não)” e Deus Abandonado, produzidas por Mário Ferrari; Obrigado, igualmente e Vherá (Um banco de dados para a gente acessar) coproduzidas por Kevin Brezolin (@_dasluz, @taletalrecords)
Mixagem: Brenno di Napoli e André Brasil
Masterização: Júlio Porto (@marmitastudios)
Arte da capa: Mário Ferrari, sob fotografia de Genaro Joner
Fotos e stylist: Guilherme Fernandes
Figurinos: Danielle Silva | @semnome.sa
Bordados: Mitti Mendonça | @maonegra.atelier
